Travessia de atlântico norte

Olá Pessoal,

Saudações da família Planckton!

Antes da travessia, ao mesmo tempo que queríamos estar totalmente presentes e conscientes, atentos aos mínimos detalhes, começamos a ficar sonhadores. Todos pareciam um pouco diferentes, ou eram os meus olhos?

E lá estávamos nós, acompanhando a previsão do tempo, trocando idéias com outros que iríam cruzar, sempre abastecidos ao máximo de água e comida e fazendo despedidas todas os dias. As meninas do Ephemeros foram para o Brasil (não sem antes deixar o freezer abarrotado de comidas deliciosas, com lista de preparações e dicas de acompanhamento!). Todos os dias nos despedíamos do Santa Paz e do Pajé. O Luar já tinha saído na semana anterior, o Constante saiu no domingo. Saímos, eu, Fabio e Igor, no dia 18 de maio, uma terça-feira.

Há tempo que escrevemos para um grupo muito variado de pessoas, desde familiares e amigos de longa data, até cada novo amigo que fazemos no caminho e, através do site, muitos novos amigos virtuais. Alguns já fizeram muitas travessias, ou pelo menos uma, outros nunca se imaginaram dentro de um veleiro e há ainda outros que sonham um dia fazer algo parecido... Estou aqui sem saber por onde começar... Aqui vão, em pequenas ondas, minhas impressões sobre a nossa travessia.

A Partida

No dia da partida me sentia como uma criança na subida da montanha russa - excitada e com um friozinho na barriga. Saímos com uma boa previsão, os ventos seriam fortes nos primeiros dias e aos poucos diminuiriam, ventando inicialmente Leste (E) e então virando para Sudeste (SE), o que seria um través, até alcançarmos 200 milhas a SE das bermudas. Mas isto era só a pré-visão...

Estávamos felizes por que a brincadeira estava começando! Era nossa primeira "rodada" no SSB, com Ronny e Ephemeros. Numa travessia a hora de falar no SSB é um grande acontecimento, é momento de atualizar a previsão, passar sua posição e pegar a posição dos outros barcos e trocar figurinhas sobre o astral a bordo, o que comeram, trocar receitas... o Ephemeros tinha ouvido do Herbie a previsão de um "sistema de baixa pressão" se formando na altura da Florida e que poderia se tornar uma "tempestade extra tropical". Se isso ocorre-se passaria por cima de nós (pelos nomes não precisa nem dizer que isso não era nada bom né). Resultado, o Ephemeros e os outros 10 barcos que saíram no mesmo dia decidiram voltar... mas nós decidimos ficar (a montanha russa era com looping duplo!). Demos um bordo e continuamos seguindo para E, sem subir muito. Queríamos dormir sobre o assunto, para ver se o bicho papão era de verdade. Foi ótimo! O bicho-papão decidiu ir mais para Noroeste (NW) e nos deixou um vento favorável para fazer um rumo mais direto para os Açores, sem ter que ganhar tanto Norte (N). Os ventos eram entre 18 e 25 nós, e lá fomos nós!

Os primeiros dias e a rotina a bordo:

Os três primeiros dias de uma travessia eu chamo de "marmotação". Entre uma atividade essencial e outra a gente só quer deitar e fazer o máximo de nada que a gente conseguir. Parece que estes três dias na verdade são um longo e lento dia! Aí, devagarinho, a gente vai entrando na rotina da travessia.

Os valores mudam por completo e um senso de autopreservação muito forte se instala. O mais importante é estar bem alimentado, descansar sempre que possível e evitar ao máximo qualquer queda, seja uma queda corporal propriamente dita, ou do sistema imunológico ou no astral.

Por falar em astral, este passa a ser regido por outros elementos. Combinando a altura das ondas, a intensidade do vento e sua posição em relação ao barco (orça, orça folgada, través, alheta e popa) obtém-se uma complexa escala determinante do moral da tripulação, que eu classifico assim (de 10 a 0): Adoro estar aqui! - É bom estar aqui - É...agora já estou aqui! - O que é que eu estou fazendo aqui?!! - e por último - Me tira daqui!!!

Um tripulante pode passar por mais de um destes estados em menos de 24 horas. Enquanto isso a rotina a bordo tem que continuar. Todos os dias: baixar todas as previsão disponíveis, falar no SSB nos 3 ou 4 horários diferentes combinados, cozinhar, comer, assistir desenho, descansar e dividir os turnos de vigília do barco. E intercaladamente fazer faxina, tomar banho, tentar pescar, consertar alguma coisa essencial que quebrou, ler um livro, brincar de massinha, pintar, desenhar. Os dias passam voando!

As atividades rotineiras parecem levar o dobro do tempo e exigir três vezes mais do corpo. E vira e mexe acontece algum imprevisto. Por exemplo, logo no terceiro dia, íamos com a genoa "rizada", o vento havia aumentado para 30 nós e estávamos com uns 2 metros de onda, notamos o cabo do enrolador quase se rompendo, por estar em atrito com o próprio enrolador. Neste mesmo dia, ao "rizar" a mestra perdemos uma tala. Foi o dia inteiro de muito trabalho, para trocar o cabo do enrolador e providenciar uma tala nova... O bom é que o barco andava muito bem num velejo confortável.

Contatos com outros "mundos":

No quinto dia alcançamos o Constante e o Julie. Eles tinham diminuido o ritmo e tentavam não subir tanto ao N, devido as depressões que continuavam a se formar. Chegaram a ficar um dia inteiro "parados" (se fossem muito a E corriam o risco de cair na "Zona de Alta Pressão dos Açores", o que significa não ter vento). Passamos a falar constantemente pelo VHF. Estavamos cada qual em seu próprio barco, e nem conseguíamos nos ver, mas sabê-los perto, dividir as dificuldades e as alegrias do dia, de alguma forma, nos aproximou mais, criou uma cumplicidade e uma intimidade diferentes, e as vezes parecia até que estávamos no mesmo barco!

O contato diário com o Luar e o Ephemeros pelo SSB foi essencial. Conseguimos nos posicionar muito bem entre as baixas e as altas pressões, e nos sentíamos muito seguros. Mesmo em situações difíceis, saber de antemão o que te espera e ter tempo para se preparar, tanto de forma prática como emocional, foi realmente muito importante. E o alto-astral e a confiança do Ronny foram um presente da travessia! Obrigada!

Tempo e Espaço:

Tempo e espaço. Além do relógio, a rotina, o sol e a lua nos diziam que o tempo estava passando. E o frio chegou, confirmando o GPS - estavamos realmente nos deslocando. Fomos tirando do armário as roupas e cobertores que não usávamos desde que deixamos Parati, em julho do ano passado. Gorros, meias e casacos. Já desacostumados do frio, os turnos da madrugada eram geladíssimos. As roupas começaram a soltar mil pelinhos e nos vimos em meio a tanta água tendo que lidar com uma "poeira", e aspirar o barco todos os dias!

Lidando com as dificuldades:

Lembra do enrolador? Pois a história ainda não tinha terminado. No décimo dia o mar e o vento (SW) aumentaram considerávelmente e tivemos 24h com vento na casa dos 30 nós. E é claro que o enrolador escolheu a melhor hora para quebrar... O Fabio foi até a proa, mas naquelas condições não seria possível consertá-lo. Velejávamos somente com a genoa, pois para nós, com vento em popa é mais confortável. Se o vento aumentasse teríamos que baixa-la e subir a mestra. Agora era confiar e torcer para o vento não aumentar...


O tempo todo de olho na intensidade do vento eu me perguntava "- E o que fizeram com a bendita calmaria que me prometeram?!". Bom, a calmaria não chegou, mas o vento diminuiu bastante. Fizemos 30 horas de motor, em baixa rotação pra não fazer muito barulho, andando a 3 nós. Vimos golfinhos, consertarmos o enrolador, tentamos pescar, fizemos bolo de frutas secas, 2 tipos de pães diferentes, almoçamos um belo risoto de funghi. Era feriado a bordo! E o animo subiu na escala para "eu adoro estar aqui, obrigada!".

Cozinhar a bordo não é tarefa das mais fáceis. Por isso é muito importante ter tudo mais ou menos planejado antes da saída. Fazer um cardápio ou lista de preparações, saber em que local estão os ingredientes, deixá-los mais ou menos a mão e ter preparações prontas (do tipo abrir a lata e esquentar) bem acessíveis. Eu sempre que possível gosto de descansar 20 minutos antes de encarar a preparação do almoço, mas o mais importante são os 20 minutos depois do almoço... Ter comidinha gostosa é essencial para manter a tripulação animada e bem disposta!

Estavamos revigorados! Novamente vento e mar aumentaram, de 20 nós de manhã chegou aos 40 nós na madrugada. Chegamos a bater 10,3 nós de velocidade, na surfada da onda. Andamos acima de 7 nós por 2 intensos dias, só de genoa. Sair, só se extremamente nescessário (no Planckton, devido aos vidros, a gente pode fazer os turnos dentro do barco, sem sair para o cockpit). O mar devia ter uns 4 metros e parecia vir de todas as direções. Numa conversa do rádio quando perguntaram se estava "rolando" muito no Constante a Meng falou que mais um pouco o cérebro dela rolaria pra fora da cabeça. Nem precisa dizer que o moral já estava no nível do "o que que eu estou fazendo aqui?!!" Mas foram apenas 2 dias... Nestes dias o maior desafio é lidar com o cansaço. Um casaço sem trégua. Nem durante o sono alivia. Nestes dias eu me imaginava em uma grande varanda, num dia quente, logo depois da chuva, deitada numa rede e cercada de verde por todos os lados! Parecia até sentir o cheiro da terra molhada.

O Igor

O Igor foi a leveza e doçura da nossa travessia! Eu não conseguia entender como, enquanto eu precisava me segurar ao me movimentar, ele brincava de escorregar de um bordo ao outro, virava cambalhota, plantava bananeira e pulava, pulava sem parar! Eu sem fazer tudo isso tinha os ossos dos quadris, a canela e os joelhos doloridos e sempre com um roxinho!

Logo no segundo dia ele começou a falar "Eu". E decidido! Parecia orgulhoso, e ficava achando situações para falar "Eu" o tempo todo! Não ouvi mais nem um "O Igor quer". Era o tempo todo "Eu faz isso" "Eu adora aquilo", e a gente ria com as conjugações- "Eu sabo mamãe". Um dia ele falou pra gente "mamãe, agora você vai dormir, e o papai também, e eu cuido do barco!" Rimos até! Explicamos que ele poderia ficar junto conosco no turno e lembramos que ele é ainda um aprendiz. "É, mas eu to crescendo!". Com nosso godê de tinta aquarela fizemos muitas pinturas lindas, mas nos dias mais difíceis a sessão de desenho era dobrada. Ele mesmo dizia "Hoje é um dia difícil de brincar, né". Aliás, a TV no quarto ficou excelente!

Tivemos algumas surpresas a bordo, que foram muito divertidas, e garantiram brincadeiras. Primeiro um pequeno pinguim de pelúcia amanheceu no nosso quarto, e nos contou muitas estórias de como veio nadando da antártica, porque ele não gostava de água fria e falaram para ele que tinha um menino que morava em um barco que também não gostava... Outro dia foi um passarinho que no turno da mamãe pousou no barco com um mochilinha estanque nas costas e perguntou se este era o barco do Igor. Daí ele tirou um lindo metalofone que trouxe de presente e deixou um grande abraço, mas ele estava atrasado e precisava ir embora...

Me ajudou a fazer pão e bolo! E soltou um "- Uhum, está uma delícia"!

Ele já é um homenzinho! Todo independente, quer fazer as coisas sozinho e vai conquistando aos poucos essa autonomia. Faz o tempo todo comparações com o tempo em que não sabia ou com o tempo em que vai aprender algo, esta curtindo crescer e ficar mais sabido! Super companheiro!

A chegada

Nos quatro últimos dias o vento foi diminuindo, mas o mar insistiu em ficar grande. Depois que o GPS começou a marcar menos de 99h para a chegada, não deu mais para parar de contar quantas milhas ou quantas horas faltam para chegar. No meu turno no dia 04 de junho avistei os faróis de Corvo e de Flores. Acordei chegando (o capitão me poupou do turno da madrugada)... Chegamos em Flores 18 dias depois da saída, dia 05 de junho as 8h manhã. Fizemos 2237 milhas em 447h.

Estavamos felizes. Muito! Nos sentíamos mais fortes, mais confiantes e mais unidos. Cada um admirando ainda mais o outro, pela força, o companheirismo, a superação. Pensei que ao chegar dormiríamos imediatamente, por horas e horas, mas estávamos tão agitados que passamos o resto do dia fazendo faxina e botando ordem no barco e depois fomos experimentar os cheiros e sabores da terra!

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